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Meio Ambiente, cidades sustentáveis

Crise hídrica: moradores de BH pagam por ar no cano

Crise hídrica: problema se agravou em janeiro, pagamento de ar como se fosse água é uma situação que já ocorria quando havia interrupções de fornecimento para reparos nas redes.

Eliminador de ar poderia ser uma solução

Fonte: Estado de Minas Gerais

Copasa: moradores pagam por ar em cano e não por água

Dona de salão no bairro caiçara, Nádia de Menezes vê torneira seca, mas medidor não para de girar. Foto: Euler Júnior / EM

 

Sem água, moradores de BH pagam por ar no cano

Com o aumento nos cortes de fornecimento, consumidor tende a ter mais prejuízo com o ar que toma conta da rede vazia e faz girar o hidrômetro, sendo cobrado no fim do mês

Da torneira da empresária Nádia Regina Sales de Menezes, de 56 anos, a água praticamente não pinga mais durante o dia desde dezembro. Mas, mesmo com encanamento seco, o ponteiro do hidrômetro da casa onde funciona seu salão de beleza continua a girar e a registrar um consumo inexistente, como testemunhou a equipe do Estado de Minas. “Estou sem água e pagando pelo ar que vai sendo bombeado pelo encanamento da Copasa”, reclama. Como ela, que trabalha na Rua Atalaia, no Bairro Caiçara, Região Noroeste de Belo Horizonte, vários moradores de áreas afetadas por desabastecimento na capital perceberam que, mesmo faltando água para suas atividades, a despesa continua a ser registrada nos medidores devido à passagem de ar. A explicação para isso, segundo laudo do Ministério Público e a avaliação de especialistas, é que, quando o fornecimento é interrompido, a rede de distribuição é preenchida por ar e esse volume é empurrado quando o fornecimento retorna, movimentando o sensor de registro de consumo.

Nesses casos, a recomendação é de que sejam instalados eliminadores de ar para sanar o problema, embora as informações sobre o mecanismo, sua disponibilidade e eficácia sejam escassas. Essa situação pode ser constatada a partir dos próprios números fornecidos pela Copasa: somente em Belo Horizonte, até o mês passado eram quase 590 mil hidrômetros em operação. Porém, em todo o estado, a estatal instalou apenas 502 eliminadores desde 2007.

O pagamento de ar como se fosse água é uma situação que já ocorria quando havia interrupções de fornecimento para reparos nas redes, mas que se agravou com a crise hídrica, por dois motivos principais: os cortes ficaram mais frequentes – apenas nos dois primeiros meses do ano foram duas dezenas somente em BH – e a Copasa foi obrigada a reduzir a pressão de fornecimento, para reduzir perdas com vazamentos. “Com a pressão mais fraca, bairros mais altos e mais afastados acabam ficando sem abastecimento e o ar entra pela tubulação. Quando o fornecimento volta ou a água começa a ser bombeada, o ar é expulso da rede através de caixas d’água vazias e torneiras. O problema é que esse fluxo aciona o hidrômetro como se fosse água”, explica o engenheiro hidráulico e professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Nilo de Oliveira Nascimento.Por vezes a Copasa admitiu neste ano ter reduzido a pressão de sua rede, o que já deixou sem água sobretudo bairros afastados do ponto de fornecimento ou mais altos, como Castelo, Ouro Preto e Bandeirantes (Pampulha), Buritis (Oeste) e Caiçara (Noroeste). Segundo o especialista da UFMG, isso pode ter trazido prejuízo para quem não dispõe do eliminador que impede o ar de movimentar o hidrômetro. Mas, mesmo quem quis instalar o aparelho encontrou desinformação e continua a ter um consumo fantasma registrado. “A pressão da água aqui só melhora à noite e no início da manhã. Estou tendo de acordar mais cedo para me abastecer. Perguntei para um terceirizado da Copasa se podia instalar um eliminador de ar. Ele disse que tinha de ser um da concessionária”, relata o funcionário público Corjesus Estevão Vasconcelos, de 57 anos, também morador do Caiçara.

A polêmica do eliminador de ar já se arrasta por anos. Em 2006, a Copasa e o Ministério Público do estado firmaram um termo de ajustamento de conduta (TAC) no qual a empresa se comprometia a instalar e a vistoriar os eliminadores aferidos por laboratórios das universidades federais de Minas Gerais (UFMG) e de Itajubá (Unifei). Porém, a estatal, mesmo depois do acordo, divulgou comunicados pondo em xeque a eficiência dos mecanismos. O equipamento custa a partir de R$ 200 e sua aquisição, assim como a compra das conexões necessárias, fica a cargo dos clientes. O preço da instalação varia entre R$ 160 e R$ 315, dependendo do encanamento. A estatal cobra também pela vistoria da montagem, retirada ou substituição, em valores que podem variar de R$ 10 a R$ 1 mil, dependendo do caso. De acordo com os laudos recebidos pelo MP, os aparelhos chegam a ter eficiência de até 98% na eliminação de ar nos casos de esvaziamento dos dutos de água. Mas, no caso do ar que vem misturado à água fornecida, a eficácia foi considerada irrisória.

Questionada quanto a informações relativas ao equipamento, a Copasa informou que o laudo que atesta a validade de cada marca deve ser consultado no site do Ministério Público, no qual a informação não foi encontrada ontem. Isso apesar de a Recomendação 10 do Procon Estadual, de 2006, determinar textualmente “que a Copasa, através do seu sítio na internet e do Serviço de Atendimento ao Cliente, disponibilize e divulgue a informação relativa aos fabricantes e modelos de aparelhos registrados (…) que apresentaram o laudo emitido pelo Inmetro atestando que o modelo comercializado não interfere na medição do hidrômetro, como também o laudo emitido pela UFMG ou Unifei atestando a proficiência do aparelho”.

Enquanto a água não volta a ser fornecida com regularidade e a empresária Nádia Menezes continua a pagar pelo ar em seu encanamento, o jeito foi encher com ajuda da vizinha dois barris, que ela usa para cuidar do cabelo das freguesas. “Estou tendo muitos prejuízos. Preciso desmarcar clientes e racionar. E, em vez de minha conta diminuir, parece que está é aumentando”, protesta.

O número de interrupções de fornecimento sob argumento de manutenção também aumentou, como mostrou levantamento do EM com base nos boletins oficiais da empresa. Em quatro anos, houve um crescimento de 118% na quantidade de interrupções do serviço em vários bairros de Belo Horizonte. Em 2011, foram 22, número que mais que dobrou no ano passado, passando a 48, e que tende a ser superado em breve: apenas nos dois primeiros meses de 2015, os cortes em BH comunicados pelo site Copasa Transparente já chegaram a 20.

26/02/2015 Posted by | Política | , , , , , | Deixe um comentário

Governo Dilma: programa Minha Casa, Minha Vida está abandonado em Minas

Enquanto Dilma inaugura hoje 920 casas do Minha Casa, Minha Vida na Bahia, conjuntos que seriam erguidos em Minas com recursos do programa federal estão abandonados.

PT abandona Minas

Fonte: Estado de Minas 

Minha Casa, Minha Vida: Governo Dilma abandonou programa em Minas

Cenário de abandono em Paineiras: o mato cresce não só nas ruas que separam as unidades habitacionais, mas também dentro das próprias casas. Foto: Estado de Minas 

Governo federal inaugura casas enquanto moradias inacabadas deterioram em Minas

O cabo de guerra entre governo federal, prefeituras, bancos e empreiteiras disputado há quase um ano deixa as casas do programa Minha casa, minha vida inacabadas em duas cidades mineiras. Na pequena Paineiras, cidade de 4,6 mil habitantes na Região Central, a corda arrebenta do lado mais fraco. Contemplada com uma das 37 casas, Adriana Alves da Silva, de 31 anos, esperava ter se mudado em maio do ano passado, quando a placa na entrada do conjunto habitacional previa o prazo para a conclusão das obras. Adriana cria sozinha dois filhos, um de 8 anos, que é autista, e outro de 14, que, segundo ela, ainda não teve um diagnóstico fechado, mas sabe-se que tem atraso mental. “Meu sonho é minha casa”, afirma a mulher, que poderia pagar, segundo seus cálculos, exames para os filhos com o dinheiro do aluguel (R$ 300). Enquanto as obras das casas de Paineiras estão abandonadas, hoje, em Feira de Santana, na Bahia, a presidente Dilma Rousseff (PT) entregará 920 moradias do programa. O ato faz parte da estratégia da presidente de criar uma agenda positiva diante das sucessivas denúncias de corrupção na Petrobras. Na segunda-feira, durante cerimônia de posse como presidente da Caixa Econômica Federal, Miriam Belchior anunciou que será lançada uma nova etapa do programa, com a construção de 3 milhões de novas moradias.

“Está demorando demais”, lamenta Adriana, que recebe um salário mínimo mensal relativo à pensão do filho autista e diz que em alguns meses chega a faltar dinheiro para comida. “A sorte é que o pessoal da cidade sempre me ajuda com cesta básica”, destaca. De três em três meses ela procura um advogado para cobrar a pensão alimentícia do marido. “O pai deles é alcoólatra, esteve preso e tem muita dificuldade para conseguir emprego em Belo Horizonte, onde vive”, detalha. Adriana não pode trabalhar, pois os filhos exigem atenção o tempo todo. “O mais novo tem autismo e não conversa, usa fralda e preciso ficar com ele até para levá-lo ao banheiro”, explica.

No conjunto habitacional onde Adriana e seus filhos deveriam estar morando desde maio – caso o prazo estabelecido tivesse sido cumprido –, o que chama a atenção é o mato, que cresce até no piso do que deveria ser um banheiro. Portas foram arrombadas e as esquadrias da janela estão completamente empenadas. Materiais usados na obra, como areia e brita, estão abandonados no matagal. No cenário de desalento, o único som que se ouvia ontem ao meio – dia era de uma porta depredada movimentando-se com o vento.

O prefeito de Paineiras, Osman de Castro (PR), diz que tentou contato com a empreiteira Paralelo SOS e também com o Ministério das Cidades, mas não teve resposta. Castro argumenta que a responsabilidade da prefeitura era preparar o terreno e que isso foi cumprido. “Os futuros moradores me procuram. Alguns dizem que vão invadir e algumas portas já foram estouradas”, explica o prefeito.

Responsável pelas obras do Minha casa, minha vida em cinco municípios mineiros, entre eles Paineiras e Quartel Geral, o empreiteiro Sérgio de Oliveira e Silva, dono da construtora Paralelo SOS, atribui o atraso nas obras à falta de repasses de recursos pelo Ministério das Cidades, por meio do Bicbanco. Segundo Silva, a demora é de quase 50 dias para receber, enquanto o acordo previa, no máximo, 30 dias. “Cheguei a comunicar o problema ao Ministério das Cidades. A gente acaba tendo que dispensar funcionários e fica sem credibilidade junto aos fornecedores”, afirma.

O empreiteiro ressalta que conseguiu concluir somente 26,6% das obras em Paineiras e 18,4% em Quartel Geral. Os trabalhos estão parados desde novembro e outubro, respectivamente. “Para mim, não é interessante atrasar. Tudo aumenta. Somos contratados por um preço baixo (R$ 25 mil a unidade) e ainda tem a morosidade para receber. Mas se avanço a obra e não recebo, fico devendo e tenho que pagar juros”, reclama Silva, que afirma que o próximo repasse estava prometido para depois do carnaval.

Em nota, o Bicbanco respondeu que “não comenta eventuais negócios com clientes ou possíveis clientes”. O Ministério das Cidades informou que a equipe técnica está ocupada com o evento de Feira de Santana, na Bahia, e não poderia esclarecer ontem as razões do atraso nas obras nos municípios mineiros.

Sem telhado

Na pequena Quartel Geral, de 3,3 mil habitantes, na Região Centro-Oeste, a situação é pior. Das 39 casas previstas, apenas oito foram levantadas, sendo que uma está sem telhado. A obra envolve o mesmo banco e construtora de Paineiras. As casas deveriam ter sido entregues em maio do ano passado, quando Jaqueline Rosário da Silva, de 24, ficou grávida de seu segundo filho. No dia 6 deste mês nasceu Whitney e as obras seguem paradas. O mato cresce nos cômodos, algumas paredes foram rabiscadas e as telhas de algumas casas foram removidas por uma ventania.

Jaqueline cuida de sua filha recém-nascida e de seu primeiro filho, Patrick, de 6 anos, sozinha. Paga R$ 200 de aluguel e está em licença-maternidade do emprego em uma fábrica de sapatos na cidade vizinha de Abaeté. “Não sei se vou esperar mais. Pago R$ 200 de aluguel e o dinheiro poderia ajudar muito nas despesas da casa. Já falei com o pessoal da prefeitura que estou pensando em ir para lá com a casa sem acabar”, afirma Jaqueline.

O engenheiro civil Elder Augusto, da Prefeitura de Quartel Geral, explica que o prefeito da cidade já colocou à disposição máquinas para carregarem material, mesmo não sendo essa uma função da prefeitura. “Ele tem medo de o mandato acabar e não terminar as casas e as pessoas colocarem a culpa nele”, afirma o engenheiro.

Presente de grego

Mais de 900 casas de três conjuntos habitacionais, construídas dentro do programa Minha casa, minha vida, estão prontas em Montes Claros (Norte de Minas), mas vão continuar vazias pelos próximos meses. O motivo é a falta de infraestrutura dos conjuntos. O sorteio para a entrega dos imóveis estava marcado para hoje, mas ontem o prefeito de Montes Claros, Ruy Muniz (PRB), anunciou o adiamento. Segundo ele, entregar agora as unidades seria como “dar um presente de grego para os moradores”.

De acordo com Ruy Muniz, nos conjuntos habitacionais Vitória II, Rio do Cedro e Monte Sião IV faltam escolas, unidades básicas de saúde, postos policiais, praças, quadras poliesportivas cobertas, linhas de transporte coletivo e espaços reservados para o comércio. O chefe do Executivo disse que, além de cancelar o sorteio dos novos conjuntos, a administração municipal decidiu não conceder o “habite-se” (liberação para a ocupação) dos imóveis. A intenção do prefeito é exigir do governo federal a liberação de recursos para escolas, postos de saúde e outras obras estruturais nos conjuntos. Ele anunciou que, no mês de março, terá uma reunião com a secretária nacional de Habitação, Inês Magalhães, para cobrar uma solução para o problema.

26/02/2015 Posted by | Gestão deficiente, Gestão do PT, Governo do PT, Política | , , , , , , , , , , , | Deixe um comentário